terça-feira, 27 de novembro de 2012

CONVERSAS EMPÍRICAS À VOLTA DO LIBERALISMO

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“Declarar, Assegurar, Concretizar”.

(três palavrões importantes)

 

Os Direitos para os cidadãos aparecem na Declaração de Princípios do Liberalismo Clássico,

são Garantidos pelo Estado Social,

mas é no Estado Democrático de Direito que o “evento dos Direitos” aparece Concretizado (de facto) num modelo de sociedade pluralista.

 

[….]

 

O Liberalismo e o Estado Social são como que as duas faces de uma mesma moeda antiga e desvalorizada pela própria natureza do fenómeno político em Portugal.

O Liberalismo Social concretiza os princípios liberais mas “entrega” a posse do Estado à democracia, à cidadania e ao povo, Garantindo, por isso, a Democracia Social;

O Estado Democrático de Direito Concretiza (de facto) essa “propriedade” como elemento natural e elementar ao cidadão e aos seus direitos mais básicos a uma vida “mínima” e digna.

 

[….]

 

Mas há outros considerandos a introduzir na equação.

 

Não será por acaso que se identifica Portugal como sendo um país “diferente”, querendo com isso dizer-se (certamente) rigorosamente nada de especial que não seja a “verdade dos factos”;

Ou por palavras diferentes, neste nosso país à beira mar plantado não existe grande variedade política a considerar numa leitura genuina no âmbito da filosofia política – existe Comunismo e existe Liberalismo, e o resto (em conversa de Gato) é “Treta”.

 

Portanto, só importa falar (na perspetiva do debate político) nestas duas linguagens;

E falar de comunismo e de liberalismo implica falar de Propriedade Privada, da sua posse e da sua “liderança” (em jeito de metáfora).

 

Mas o Estado aparece pelo “meio” deste racionalismo político;

E aqui temos o nosso problema atualizado com os dados de governação política em Portugal dos últimos 20 anos (pelo menos…), ou seja,

a perspetiva rigorosa de uma liderança política (transversal com grande incidência na governação de “esquerda democrática”) que colocou os “Intestinos” no “Cérebro” do Sistema Político, e parte do “Cérebro” foi colocado nos “Intestinos”;

 

E ao resultado geral final chamou-se Estado Social (!!).

 

Tudo numa perspetiva de governação empírica e desordenada, e a navegar à bolina do vento de uma revolução na Pátria do Colonialismo Dialético puro e duro - o Grande Império da Diáspora Portuguesa D`Aquém e D`Além-mar.

 

[….]

 

Mas chega de palavras vãs e consideremos como válidos e importantes os debates reais (em curso) e profícuos de sentido político e de rigor sociológico,

e de cidadania ativa numa democracia representativa (portuguesa).

 

[….]

 

Em anexo junto um texto exemplar que disserta sobre o tema do Liberalismo, da sua significância política e da suas confrontações ideológicas.

Boa leitura.

 
 

§§§§ / §§§§


 

ANEXO – LEITURA BIBLIOGRÁFICA:


 

………………..

 

“…

 

de:


 

Liberalismo: A Abordagem Consequencialista vs Deontológica

Quinta-Feira, 1 de Dezembro de 2011 por Lourenço Vales

 

Intervenção na 1ª Conferência do Liberalismo Clássico, Novembro, 2011






 

 

A maior parte de nós chega ao Liberalismo pela via da Economia mais do que pela via da Filosofia (lato sensu) – e eu sou uma dessas pessoas. Para muitos de nós, a Economia é indissociável do Liberalismo, e a sua vertente filosófica é menosprezada. Não me parece que isso faça muito sentido.

De certo modo, há uma separação artificial entre Filosofia e Economia. Poucos (ou nenhuns) são os cursos de Economia que têm cadeiras que se relacionem minimamente com a Filosofia, e poucos são os Filósofos que se debruçam especificamente sobre a Economia. Nenhum economista, nos dias que correm, parece preocupado em pensar sobre os problemas de fundo da economia – quando foi a última vez que ouvimos um economista a falar dos problemas epistemológicos da Economia? (quantos de vós sequer conhecem Epistemological Problems of Economics do Mises?). O último grande debate ético que envolve diretamente a economia foi, provavelmente, a parelha Rawls-Nozick. E eu pergunto-me qual é a ideia disto – que sentido faz falar da Equação de Slutsky se não se discute o método de adquirir conhecimento na Economia; porquê falar da formação de preços se não se questiona o princípio da procura do lucro; que adianta falar de mercado se poucos são os que questionam e fundamentam a propriedade privada.

Esta palestra versa, essencialmente, sobre o modo como justificamos as nossas preferências liberais, como isso influencia a nossa visão do Liberalismo e que problemas ou inconsistências é que essas posições podem trazer para o Liberalismo.

A Economia parece ser influenciada essencialmente por autores que, conscientemente ou não, perfilham uma ética consequencialista. A argumentação a favor do Liberalismo, muitas vezes assente na teoria económica, tem a mesma característica. Quando nos perguntam “Porque é que os impostos devem ser baixos”, uma questão muitas vezes defendida pelos Liberais, quase sempre a resposta é “Porque a produção irá aumentar e isso é benéfico para as pessoas; traz boas consequências”. Aqui, obviamente, a Economia serve para “provar” que determinada ação redundará no maior benefício para o maior número; e portanto, o princípio liberal é eticamente justificável, tendo em conta a teoria utilitarista. E, no fundo, a ideia da maximização da utilidade está mais que presente na economia mainstream, como objetivo mais que normal e justificado da ação humana.

No entanto, há uma forte componente deontológica – e não necessariamente a deontologia Kantiana – em todo o Liberalismo. Se confortarmos algum liberal com a sua posição relativamente à pena de morte, o mais provável é que ele nos diga que a vida, a par com a liberdade e a propriedade privada, serão invioláveis, e portanto é contra qualquer ação que ponha fim à vida de outrem – no fundo, a adesão à regra da inviolabilidade da vida. Muito provavelmente, o princípio mais famoso e mais recorrente em todo o Liberalismo é o “Princípio da Não-Agressão”, que diz que a iniciação da força é sempre ilegítima, exceto em casos de autodefesa.

A verdade é que estas duas diferentes posições éticas podem ser usadas para justificar os mesmos princípios: um adepto da ética deontológica diria que os impostos deveriam ser mínimos (ou inexistentes) porque a sua cobrança constitui uma violação ao princípio da propriedade privada; em comparação, um consequencialista diria que a pena de morte não é uma medida que maximize a utilidade já que pode existir o risco de haver uma execução injusta e isso é prejudicial para o maior número.

Assim sendo, o que separa as duas posições? Se realmente podemos chegar à mesma resposta por caminhos diferentes, será que faz sentido haver uma diferenciação entre ambas?

A ética consequencialista, dependendo obviamente dos resultados da ação, é consideravelmente mais elástica – no sentido em que pode ser usada para defender mais facilmente pontos de vista diferenciados. Já a vimos a ser usada para defender as teorias Liberais, Comunistas, Conservadoras, e as demais. Mesmo dentro do espectro liberal, tanto pode ser usada para defender o liberalismo social de Mill, como o minarquismo de Mises e o anarco-capitalismo de David Friedman.

Aqui parece útil remeter para a epistemologia – e não me querendo alargar muito – lembrar as dificuldades em achar as relações entre causa e efeito; que a correlação não implica causalidade; a impossibilidade de estabelecer alguns limites; e tudo mais. Pense-se nas variáveis “ter isqueiro em casa” e “ter cancro do pulmão” e certamente que se encontrará uma correlação positiva muito significativa entre ambas; no entanto, não parece sensato dizer que ter um isqueiro em casa é a causa de ter cancro do pulmão. Pode-se também perguntar porque ou como é que se chega à conclusão que o limite de impostos sobre o rendimento que mais beneficia a população é 5% e não 6% ou 1% ou 50% e igualmente sobre a validade dos critérios analisados e por aí além. E não será a dependência das consequências pouco amiga da liberdade? – isto é, se fosse possível provar que o propriedade coletiva dos meios de produção produz realmente os “melhores” resultados, então um consequencialista não seria obrigado a tornar-se socialista?

Já a ética deontológica, podendo levantar acérrima discussão sobre os princípios, parece de aplicação mais pacífica. Nozick (baseada nos imperativos categóricos de Kant), Rothbard (que vai buscar a ideia de lei natural a Locke) e Hoppe (que parte da ideia da ética da argumentação de Habermas e Apel para chegar ao princípio da não agressão) contribuem para o Liberalismo chegando a conclusões semelhantes: o primado do indivíduo, da liberdade, da vida, da propriedade – diferindo apenas no âmbito da existência do Estado, que será inexistente para Hoppe e Rothbard e mínimo para Nozick. Talvez a mais honrosa exceção nesta hegemonia minarquista ou anarquista presente nas abordagens deontológicas ao Liberalismo será John Rawls, que cria os dois princípios de Justiça – o da liberdade e o da igualdade – para apresentar um Estado mais “musculado”.

Levantam-se então outros problemas: será que a ética da argumentação hoppeana não sofrerá de “begging the question” – o ponto que se procura provar já estará implícito nas premissas? Será que a teoria de Nozick não sofrerá de uma inconsistência interna no que concerne ao confronto entre o princípio de self-ownership levado ao extremo e os imperativos categóricos de Kant? Será que a ética Rothbardiana se apoia simultaneamente nos princípios da lei natural, bem como na suposta evidente superioridade dos mercados livres no que concerne à eficiência na utilização dos recursos?

Contudo, e entrando num campo ligeiramente mais flexível (deixando um pouco de lado uma certa rigidez filosófica), o maior problema que se encontra é o seguinte: se para um consequencialista, as boas consequências fazem a justiça, para um preponente da deontologia os princípios é que fazem a justiça. Para um consequencialista, os fins justificam os meios, lato sensu; para um deontologista, só os meios, as intenções, é que são relevantes. E esta aparente incompatibilidade entre ambos poderá ser perniciosa para o Liberalismo, criando confusão.

No entanto, será que é possível existirem princípios justos e a aplicação desses princípios redundar em boas consequências? Afinal de contas, se fizermos uma listagem de ações orientadas por princípios justos e ações com boas consequências, pouca (se é que alguma) diferença existirá entre ambas – “não matar” será um bom princípio, e cuja consequência será boa; “não roubar” será igualmente um bom princípio, e as consequências parecem igualmente ser boas. O problema da justificação do Liberalismo estaria então resolvido: bastava que nos orientássemos por princípios liberais sólidos que as consequências seriam igualmente satisfatórias.

Mas será que isto realmente acontece?

Hayek, com recurso à praxeologia, argumenta que sim, e aponta uma razão para isso acontecer: a Economia, enquanto ciência positiva (“o que é” ao invés de “o que deve ser), deriva aprioristicamente verdades conceptuais que nos ajudam a entender ação humana. E a não ser que compreendamos o significado das ações dos agentes, então qualquer conjunto de regras, enquanto explicação da ação humana, estará condenado ao falhanço.

Se, por exemplo, assistirmos a um ato em que dois nativos de uma terra há muito perdida trocam um pedaço de carne por uma concha, e depois outros dois trocam uma enxada por uma concha, e por aí adiante, então é óbvio que a concha será o equivalente aos nossos discos de metal – ou seja, será a moeda usada. O conceito “discos de metal” ou “concha” ou as propriedades físicas do objeto em questão nada nos dizem sobre o conceito de “moeda”, mas o significado que atribuímos à ação dos agentes é que nos é útil para chegar a essa conceção. A ação, o sujeito, o objeto, tudo terá um objetivo. E é precisamente esse objetivo, esse significado, que nos permite descrever a ação humana. E é a derivação aproriorística que nos permite então construir as tais verdades conceptuais que terão a mesma validade que os conceitos da lógica e da matemática – se faz sentido perguntar o que é o conceito de “moeda”, não parece fazer muito sentido perguntar porque é que o conceito de “moeda” não é algo completamente diferente, pela mesma razão que não fará sentido perguntar porque é que 2+2 não pode ser igual a 5.

Segue-se que estas verdades conceptuais poderão ser usadas para a construção de um conjunto de regras. O princípio da não-agressão será um exemplo de uma dessas regras – o ser humano, reconhecendo intrinsecamente a propriedade do seu “eu” (self-ownership) e, por extensão, a propriedade dos outros “eu”s, percebe que seria incoerente, de um ponto de vista lógico, atentar através da agressão contra outros.

Daí que a regra “a utilização da agressão contra outros, exceto em caso de autodefesa, não é moralmente justificável” seja um bom princípio (é derivado apriositicamente da ação humana) e irá redundar em boas consequências (não me parece que se possa considerar bom a situação em que um ser humano detenha direitos de propriedade sobre outro).

Então, se isto for realmente verdade, o nosso problema parece encaminhar-se para uma solução: se a Economia e as restantes disciplinas que lidam com a ação humana seguirem este método, então será possível construir regras (princípios) que, simultaneamente sejam justos (no sentido em que seguem princípios sustentáveis do ponto de vista lógico) e que obviamente redundam em boas consequências (por exemplo, a defesa e aplicação do princípio liberal do mercado livre trará boas consequências).

 

 

 

…”

 

 

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

CAPITALISMO, SOCIALISMO E LIBERALISMO (upgrade)

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O texto que junto em anexo é um trabalho “pouco frequente” porque é esclarecido para o público comum, que nos “fala” (por si próprio) na temática das doutrinas políticas que estão na ordem do dia e que são tratadas pelos especialistas” político-partidários de forma superficial e absolutamente ignorante,
conseguindo (dessa forma) lavar o conteúdo filosófico do seu teor político mais profundo, concretizando a leitura do “texto de Estado” numa visão estritamente contabilística da realidade,

tudo em modo irracional e danoso, e com demasiada frequência voluntariamente incompetente.

      

É também óbvio que o “caso português” é aquilo que nos interessa.

(porque não é único)

 

E isso será a tal ponto verdade que é prática corrente ativa de alguns políticos profissionais portugueses professarem o “não-desenvolvimento económico e social” da Sociedade e do Estado, por tal circunstância ser manifestamente (na opinião deles) contraindicada para a assimetria económica entre classes sociais e para a sustentabilidade do Estado.

 

Em conformidade com esta premissa parcelar e pessoal, que frequentemente (em Portugal) tem uma profundidade económica coerente por razão de um desenvolvimento regional assimétrico ou inexistente, combate-se o desenvolvimento “acelerado” (?) da economia (num quadro político de Liberalismo Económico coexistente com uma “realidade política empírica” de Estado Social) por razão de tal modelo ampliar as diferenças e injustiças sociais entre os portugueses.

 
(o que, na sua opinião, irá onerar todas as estruturas políticas e económicas do Estado tornando-o insustentável)

 

Naturalmente que esta argumentação exacerbada (em juízo de causa política firme e profunda) de combate ao crescimento da luta política entre classes sociais (que na realidade será de combate ao crescimento económico) resulta exatamente em sentido oposto provocando uma crescente assimetria política, económica e social no seio da sociedade.

 
(com as consequências esperadas e um “clima político” tanto do agrado da grande maioria dos profissionais da política portuguesa)

 

[....]

 

Sem mágoa ou equívoco,

a “Esquerda Política” não é solução para Portugal,

e a “Direita Política” é uma má solução,

para desespero dos ingénuos cidadãos comuns da nossa Pátria.

 
 

Faria sentido, pois, que as “pessoas” que personificam a política partidária se juntassem ao jantar a discutir a “Coisa” singela do destino previsto para as “coordenadas finais” do seu reinado,

que, por acaso, é a nossa vida terrena;

 

E faria muito sentido até,

mas não faz em tempo real aparentemente porque não vale a pena perder tempo com essa “missa”.

 

O Poder importa, e é “Isso” que importa,

e convém não perder tempo em “traduzir” textos políticos com outro dizer e conteúdo para a “linguagem popular entendida” que não seja aquela “sinalética” que traduz um resultado final feliz e proveitoso para a causa corporativa.

 

Tudo muito estúpido e simples,

e doentio,

perverso,

e politicamente infecioso.

 

Uma doença política de regime grave e complexa.

 

[….]

 

Temos que voltar a ler os textos daquela (nossa) filosofia que nos interessa para construir um país real, mais rico, mais próspero e mais feliz para todos os “contemplados” com o destino da nossa Pátria.

 

 
 
[etc. ….]

   

§§§§ / §§§§

 

ANEXO – LEITURA BIBLIOGRÁFICA:

 

………………..


“…

de:

 

[Sobre o Instituto Ludwig von Mises Portugal - http://mises.org.pt/sobre-nos/ ]


Capitalismo, Socialismo e Liberalismo

por Luís Barata

 

Nesta série de artigos que iremos publicar, estará porventura o que de mais atual há sobre os infindáveis conflitos entre a esquerda e a direita mundial.   Uns e outros carecem de um rigoroso pensamento conceptual que os tem impedido de ver e pensar claro.

Ignorando quase sempre a origem filosófica dos conceitos que utilizam, deles se servem sem a devida reflexão. Termos como ciência, propriedade, capitalismo, liberalismo, socialismo, técnica, tecnologia, cientismo, progresso, etc. derivam todos da filosofia e, sem os estudar na sua origem, não se poderá compreender a realidade;     e, sem adotar o ponto de vista filosófico, não se poderá conceber com verdade.

É remontando e firmando a política e a economia na filosofia, que o pensamento de Orlando Vitorino surge com a segurança, lucidez e a profundidade que outros mais famosos não conseguiram. Dele são, pois, os textos que iremos transcrever e constituirão vários artigos sobre o mesmo tema, a saber, a distinção entre capitalismo, socialismo e liberalismo, seus fundamentos, consequências e desenvolvimentos.

 


Os Três Sistemas Possíveis De Organização Económica Dos Povos


[Texto publicado no “Manual de Teoria Política Aplicada” da Editora Verbo em 2010]

 

1º Sistema: O Socialismo


Características essenciais:

  • a) Controlo da produção pelo Estado
  • b) Planeamento da economia pelo Estado
  • c) Abolição da propriedade (de direito e de facto)

Consequências do controlo da produção:

  • Controlo do consumo (pois quem controla a produção acaba por controlar o consumo) com a limitação, progressiva até à extinção, da liberdade de escolha.
  • Redução da variedade dos produtos àqueles que são imprescindíveis e rudimentares.

Consequências do planeamento da economia:

  • Controlo de todos os instrumentos de atividade, o primeiro dos quais será a moeda. Com o controlo do valor da moeda, resulta imediatamente: limitação da deslocação das pessoas, que só poderão passar as fronteiras com quantidades mínimas de dinheiro, e condicionamento das importações que começará pelo impeditivo aumento das taxas sobre os livros, primeira forma da censura universal que o planeamento completará noutros sectores: aumento do custo do papel, etc.
  • Controlo das formas de atividade, determinando quais as permitidas em função das finalidades que o plano estabelece, o que necessariamente implica: redução do ensino à preparação profissional para as formas de atividade permitidas, determinação dos empregos ou «postos de trabalho» que hão-de existir, distribuição das pessoas por esses empregos sem dar possibilidades de escolha aos indivíduos.

Consequências da abolição da propriedade:

  • Abolição do mercado com tudo o que lhe é implícito ou inerente, designadamente:


    • Extinção da determinação dos preços segundo o equilíbrio da produção universal ou segundo o mecanismo impessoal da lei da oferta e da procura, que constitui o princípio de verdadeira racionalidade da economia;

 
    • Substituição desse princípio pelas decisões pessoais dos planificadores, resultantes ou de um simples arbítrio ou de um cálculo mental necessariamente errado por não haver possibilidade de conhecer todos os fatores que intervêm na determinação do preço real, ou seja: substituição da racionalidade inerente à realidade económica pela irracionalidade da vontade dos planificadores, com a consequente pobreza geral a curto prazo, miséria a médio prazo e caos a longo prazo.

    • Extinção das categorias económicas que se formam a partir da propriedade – fruição, mercado, dinheiro – e esvaziamento das duas únicas que se manterão: a do trabalho, exclusivamente destinada a alimentar a força para trabalhar; estabelecimento, por conseguinte, do ciclo de servidão dos homens cuja existência decorrerá entre trabalhar para produzir e produzir para trabalhar.

 

Nota: Há partidos e doutrinas que pretendem constituir formas diversas do socialismo: social-democracia, trabalhismo, socialismo moderado, comunismo, etc. Trata-se de uma distinção que só existe no processo preconizado de transição, gradual ou imediata, para o socialismo, o qual, uma vez realizado, terá inevitavelmente, aquelas características.

Quando a transição é mais gradual, o processo começa pelo planeamento da economia, que logo implica o controlo de certos sectores da produção e acabará, necessariamente, por controlar toda a produção; ao atingir este controlo integral, a propriedade ficará abolida.

Quando a transição é imediata, como preconizam os comunistas, a ordem do processo de transição inverte-se: começa pela abolição da propriedade, que imediatamente implica a administração de todos os recursos económicos pelo Estado, ou planeamento, e portanto o controlo de toda a produção.

 


2º Sistema: o Capitalismo


Características essenciais:

  • a) Controlo da produção pelos monopólios
  • b) Planeamento da economia pelos monopólios
  • c) Abolição da propriedade (não de direito mas de facto)

Trata-se de um sistema de organização da economia que inevitavelmente prepara e imediatamente precede o sistema socialista. Assenta nos mesmos fundamentos e tem as mesmas finalidades. O que os distingue, ao capitalismo e ao socialismo, são apenas as figuras do controlador da produção, do planificador da economia e da abolição da propriedade.

No socialismo, o controlador e o planificador são os poderosos funcionários do Estado; no capitalismo são os ricos capitães da indústria. Hayek emprega a seguinte expressão: “No capitalismo só os ricos são poderosos; no socialismo, só os poderosos são ricos.”

Quanto à abolição da propriedade o capitalismo mantém a sua figura jurídica – que lhe serve para “cobrir” a ilimitada acumulação de capital ou o monopólio – mas destrói-a de facto. O que entre nós aconteceu no Alentejo com a propriedade agrícola – a propriedade por excelência – durante a fase pré-socialista ou capitalista, é bem ilustrativo da abolição, de facto, da propriedade: os poderosos adquiriam facilmente a terra, não para estabelecerem com ela uma relação de propriedade, mas para a explorarem ou industrializarem, fazendo dela um prolongamento ou um complemento de alguma indústria turística ou fabril (reduzindo-a, por exemplo, a coutos de caça ou a espontânea produtora de cortiça a apanhar de nove em nove anos como matéria-prima de fábricas);

deste modo, impediam a existência real da propriedade, que é uma relação dos homens com as coisas e das coisas com os homens, quer reduzindo-a efetivamente a uma posse exploradora ou industrial, quer apresentando essa exploração como o modelo mais vantajoso a seguir por aqueles que, aceitando-o, se deixavam transformar, de proprietários em possessores, com todo o cortejo bem conhecido de absentismo, desemprego, etc.

 

O elemento característico da transição de uma real existência para a abstrata socialização, é o monopólio. Socialista e capitalistas estão de acordo em afirmarem que o monopólio é o resultado inevitável da complexidade da sociedade moderna e da produção tecnológica. O leitor pode encontrar, num outro capítulo deste manual, a refutação que Frederico Hayek faz desta afirmação.

O monopólio incide, numa primeira fase, sobre os ramos de produção de cada sector; em breve, porém, os monopólios dos diversos sectores se coordenam entre si levando à centralização de toda a economia.

É então que a intervenção do Estado se torna necessária; é ela, num primeiro momento, solicitada e dominada pelos empresários organizados em monopólios, ou seja, pelos ricos que se fazem poderosos; mas logo, num segundo momento, os políticos, ou seja, os poderosos que se fazem ricos, tomam nas mãos, independentemente dos capitalistas, a intervenção do Estado, a centralização económica construída pelos monopólios.

Esta substituição dos senhores da riqueza pelos senhores do poder costuma ser feita em nome da justiça social, da igualdade, das classes mais desfavorecidas, até da liberdade, mas, como é evidente, em nada se altera a situação das populações que apenas mudam de dono. O socialismo fica, então, instituído.

 

Nota: Em rigor científico e na realidade, o capitalismo é apenas o que se designa na antiquíssima e muito mais clara designação de plutocracia, isto é, o domínio do Estado pelos valores – dinheiro, etc. – que a contabilidade dos guarda-livros resumem na rubrica de Capital, ou que vem à cabeça das contas.

 

 

3º Sistema: o Liberalismo


Características essenciais

  • a) Mercado livre
  • b) Produção pela concorrência
  • c) Reconhecimento da propriedade

Socialistas e capitalistas igualmente veem no liberalismo o seu adversário irredutível.

Ao atacarem-no, muitas vezes lhe atribuem, uns, estar ele na origem do capitalismo e, outros, estar ele na origem do socialismo, o que é igualmente falso e errado.

O liberalismo, com o seu primado do indivíduo, com a sua conceção real e racional que tem da liberdade – que simultaneamente concebe como princípio do qual todo o sistema se deduz e como realidade vivida no indivíduo – com a confiança que deposita na perfeição do mundo e no aperfeiçoamento do homem, o liberalismo está igualmente distante das doutrinas capitalistas e socialistas, doutrinas afins uma da outra, que igualmente repudiam o individualismo, igualmente fazem da liberdade uma entifição abstrata e irrealizável, igualmente formam do mundo uma imagem tal que só podem propor-se dominá-lo ou transformá-lo.

 

Ao contrário do paternalismo capitalista e do protecionismo socialista que, ambos fundados numa misantropia sem remédio, igualmente aconchegam o homem numa servidão onde lhe é dada a tranquilidade na impotência pessoal e na “segurança social”, o liberalismo confia no poder da natureza humana e na sua virtualidade de infinito aperfeiçoamento, e não receia adotar o sistema que corresponde à realidade da natureza e à realidade do homem.

Em vez da absurda e grotesca tentativa de ”transformar a sociedade com homens que legitimam os seus direitos nas suas imperfeições”, o liberalismo deixa abertos os caminhos para o aperfeiçoamento intelectual e ético, e o sistema económico que defende é o que exprime a mesma racionalidade iniludível do real inexorável: o mercado livre, que é o único processo capaz de fornecer a medida universal dos produtos, a concorrência, que constitui a única via para a prosperidade geral; a propriedade, que é a única relação do homem com as coisas do mundo.

 

 

…”

 

………………..