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“… a resposta à crise, seja qual vier a ser a sua dimensão, não é menos capitalismo, mas melhor capitalismo, não é mais Estado, mas melhor Estado ”.
(….)
»»»»»»
A gestão da “crise
incontornável”.
Muito se tem escrito sobre este
“problema” e muitas abordagens temos lido e “digerido” de prismas e quadrantes
eventualmente perturbantes e surpreendentes.
(na medida do Conteúdo Político da
mensagem que “nos é dado perceber em negativo
desfocado”)
(…)
Naturalmente que o material tem sempre
razão, e o protocolo técnico é irrebatível por mais sofisticados que sejam os
argumentos de antítese ao “prontuário ideológico, estratégico e
financeiro”.
Mas parece ser importante insistir que
o receituário do método de ataque aos grandes conteúdos envolvidos neste dilema
deve considerar que a profundidade crítica envolvida tem uma natureza
Predominantemente Política num quadro estratégico que envolve os grandes
desafios que atormentam a “Europa Unida”
contemporânea.
Porque os dados históricos da Europa
política do século XX são incontornáveis e parecem ser um desafio permanente e
uma “ameaça ideológica” à estabilidade política da União
Europeia.
A Europa pós-Colonial que abandonou os
seus impérios em África durante todo o século XX (história na qual Portugal se
manteve orgulhosamente só e firme numa determinação que ultrapassou todos os
“prazos de validade”) reforçou as suas convicções anticoloniais no rescaldo da
2ª G.M., tornando o ocidentalismo europeu numa corrente política e estratégica
de progresso crescente e imparável.
E, no fundo, será esta a questão
principal na “boca de cena” desta mega crise na Europa, como nos Estados
Unidos.
Não falamos nem discutimos o
capitalismo ou o comunismo, o socialismo ou a social-democracia, a democracia
cristã ou o anarquismo, a religião ou o ateísmo político
(…),
discutimos, sim, o Colonialismo
Político em versão new-age numa nova era política que emergiu com o novo
milénio.
Novas formas de colonialismo político,
portanto (…),
e não questões menores com um “número
de polícia” de um qualquer jargão político e ideológico que apresentado na atual
modernidade é identificado como completamente
desatualizado;
Ou antes, talvez, completamente “out of
dream” no sentido e no nexo de causalidade política, económica, social ou
estratégica nos conteúdos políticos da oratória operacional e nas práticas que
fazem o dia político e a agenda de governação dos Estados e das Nações na
Europa, nos Estados Unidos, e por todo o mundo de uma maneira
geral.
(….)
Não me canso de contar esta história
nas minhas conversas com o meu amigo 666,
em género de confissão de uma juventude
que envelheceu nos seus sonhos antes, mesmo, de começar a erigir a estrutura
principal do projeto.
(….)
Para completa ilustração de toda a
temática envolvida nesta nossa grande crise europeia volto a insistir num texto
da autoria do Comandante Eduardo Serra
Brandão.
O autor, antigo presidente da Sociedade
de Geografia de Lisboa, auditor de Defesa Nacional e especialista em temas de
Segurança, Defesa e Relações Internacionais produziu o texto em referência de
forma simples, precisa e concisa, e dispensa qualquer comentário
adicional.
Na
verdade, o texto cria (e recria) explicações simples e precisas sobre assuntos
complexos e elaborados no seu raio de ação, ao mesmo tempo que provoca uma
interação do leitor com o “problema específico” em análise fazendo-o reviver a
situação descrita e as suas consequências atuais numa dimensão em tempo útil,
realista e com uma profundidade de conhecimento notável.
Haverá
razão precisa para afirmar que “tudo” da atual crise política, económica e
estratégica que percorre a Europa está explicado neste texto, salvaguardando
situações peculiares dos países mais blindados às influências dos acidentes
políticos e económicos dos Estados que são as grandes potências estratégicas do
mundo globalizado.
Recomenda-se, portanto, uma boa leitura
no contexto em que se desenvolve este tema.
§§§§§§ /
§§§§§§
ANEXO
– ILUSTRAÇÃO TEMÁTICA:
………………..
“…
de:
2010/01/24
A
Crise Financeira Internacional, As Causas Prováveis – As Soluções
Possíveis
Eduardo
Serra BrandãoVou então falar da mais grave crise financeira, que se tornou também económica, que o mundo conheceu depois da Guerra de 1939-45.
Grave, profunda, extensa, desconhecida
e cuja duração, intensidade e consequências são ainda uma
incógnita.
Sabe-se que foram muito grandes os
estragos imediatos, que causou muitos sustos, muitos prejuízos, alguma
indignação pelas intervenções do Estado e, convenhamos, alguma satisfação
inicial e alguma esperança sobre o estertor do
capitalismo.
Como já disse alguém, esta crise foi um
“verdadeiro tsunami financeiro”.
Assistimos ao espetáculo de os Estados
aparecerem como derradeiro recurso para evitar a bancarrota generalizada, o que
fez calar as vozes do ultraliberalismo económico.
Foi
a confirmação de que a ordem económica internacional repousava sobre uma imagem
insustentável de crescimento e prosperidade sem fim, que se instalara na base do
dinheiro fácil e contaminara, como se viu, todo o mundo.
O próprio Greenspan, antigo presidente quase vitalício da Reserva Federal, confessou que tinha ido longe demais na sua confiança no bom funcionamento do mercado.
Verifica-se que esta crise é uma crise
estrutural, que afeta todas as áreas, e transversal a todos os sectores.
Conhecem-se as causas prováveis e também algumas soluções possíveis, mas ninguém
está seguro sobre a sua razão e a sua eficácia. Os novos problemas poderão não
ser resolvidos com soluções do passado.
O último Nobel da Economia dizia, há
pouco tempo, no New York Times que não é possível prever se as medidas que estão
a ser tomadas nos Estados Unidos e na Europa, e que seriam certamente adequadas
a uma crise normal, serão suficientes ou apropriadas para debelar esta que
atualmente defrontamos.
Começando com as falências financeiras
nos Estados Unidos, rapidamente evoluiu para uma crise global que conduziu à
falência iminente de muitos bancos europeus e a descidas vertiginosas nos
índices bolsistas.
Alguns países entraram em grandes
dificuldades financeiras, como a Islândia que para ser salva da insolvência vai
ser admitida na União Europeia.
Vejamos
então as causas prováveis
Por inteligência ou por ideologia, há
quem considere que as políticas de Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Helmut
Kohl são a origem remota desta crise.
Com o seu entusiasmo pelo liberalismo e
pelo capitalismo, contribuíram para o progresso e enriquecimento dos seus países
e para o aumento do poder de compra e do bem-estar dos seus concidadãos.
Mas, há sempre um mas, o excesso de
confiança nos operadores e a carência de regulação e de supervisão terão criado
o ambiente que deu lugar ao egoísmo,
a causa da crise segundo o Papa Bento XVI, ao oportunismo e à prática de operações ilegais, fraudulentas
ou muito arriscadas.
Terá, depois, contribuído para a crise
a legislação de Bill Clinton com vista a distribuir dinheiro para facilitar ou
permitir a compra de habitação pelos hispânicos, eleitores democratas, e, para
disfarçar, pelos funcionários e pelos veteranos com mais dificuldades.
Com o mesmo fim, acabou com a separação
entre bancos comerciais e bancos de investimento, pondo termo a uma lei de 1929.
Os bancos aproveitaram logo a
oportunidade para fazer grandes negócios, facilitando e estimulando o crédito,
com pouca ou nenhuma supervisão.
Usando
intencionalmente frases de conhecidas personalidades, a “criatividade destrutiva
do sistema financeiro”, atuando em completa liberdade, deu lugar ao “lixo tóxico
financeiro” e às “armas financeiras de destruição maciça”.
Os governos e os analistas europeus
tinham obrigação de ter visto que a crise na América apareceu em 2007, com o
nome de crise do “Subprime”, que,
como escreveu Robert Shiller, da Universidade de Yale, se pode identificar como
um ponto de viragem histórica nas nossas economia e cultura, resultado da “bolha” especulativa no
mercado imobiliário, que começou a rebentar em 2006 e causou profundas fendas e
ruturas, não só nos Estados Unidos mas em diversos países, com a concessão de
empréstimos superiores ao valor da habitação.
Aumentavam assim o movimento e o lucro
das instituições que geriam, dando lugar aos inacreditáveis prémios,
“vergonhosos” no dizer de Obama, às administrações incompetentes ou distraídas
das instituições financeiras.
Com tanto dinheiro, mais do que
necessário para a posse da habitação, o americano viu reforçado o seu poder de
compra e, comprando a prestações sem controlo, endividou-se, ficou sem dinheiro
para pagar os empréstimos e a banca acabou por executar as hipotecas por valores
irrisórios, muito inferiores às garantias dadas.
Verificou-se uma queda brutal nas
vendas de habitações, arrastando consigo a crise na construção. Não é fácil
acreditar que neste momento há perto de vinte milhões de casos de habitações
vazias nos Estados Unidos da América.
A crise veio à superfície com o “Credit
Crunch” ou crise de crédito, que foi uma súbita redução na disponibilidade de
crédito ou um súbito apertar das condições requeridas para a obtenção de crédito
através da banca.
Há quem resuma as causas objetivas da
crise nos Estados Unidos à excessiva facilidade do recurso ao crédito, à
existência de taxas de juro muito baixas durante um longo período e à
complacência face ao risco.
Mas há também quem diga que a crise
financeira foi o resultado de o Estado se ter demitido do seu papel de vigilante
e de uma crise de valores – políticos e éticos.
Alguém disse que “a ideologia do
sucesso, a qualquer preço, com qualquer lei, dominava a cena política há
anos”.
A perspetiva de falência ou as
suspeitas sobre a sorte de alguns bancos levam os depositantes a levantar os
seus depósitos, as instituições a limitar o crédito, os empresários a não terem
acesso ao dinheiro, o consumidor a reduzir as compras, os acionistas a vender na
Bolsa a qualquer preço e, em consequência de tudo isto, vê-se aumentar
assustadoramente o desemprego.
A crise financeira deu assim lugar à
crise económica, ou como hoje se diz, “afetou gravemente a economia real”.
E vai dar lugar à crise social,
complicada e que já fez barulho na Grécia, na França e no Reino
Unido.
O primeiro sinal da crise em 2008 foi a
falência do banco Lehman Brothers em Setembro, como toda a gente sabe, e que o
governo americano e o Congresso já lamentam não ter evitado. Não, neste caso,
pela preocupação com o prejuízo dos acionistas, dos depositantes ou dos
trabalhadores, porque isso, dizem os liberais, era o resultado do normal
funcionamento do mercado – eliminando os inúteis e os mais fracos -, mas pelo
que afetou a confiança no sistema bancário, que podia ter tido consequências
muito mais graves.
Não se lembraram a tempo de que a
confiança é a hemoglobina que corre nas artérias do sistema financeiro
internacional.
Muitas e importantes instituições
financeiras soçobraram na América e em todo o mundo logo a seguir ao Lehman
Brothers e, no primeiro choque da crise, foram todas ajudadas pelos respetivos
governos para evitar as falências e o pânico.
Entre os gigantes em dificuldades
figuram, por exemplo, a União de Bancos Suíços, o Deutsche Bank, o Royal Bank of
Scotland, e o Bank of America e o Citygroup nos Estados Unidos, este último com
200 milhões de contas, 12 mil agências em 107 países e empregando 400 mil
trabalhadores.
A crise na América propagou-se quase
instantaneamente pela Europa e pelo resto do mundo devido à capilaridade do
mercado financeiro resultante da internacionalização dos bancos, da cumplicidade
na exposição aos riscos, da permuta de capitais acionistas, das garantias
colaterais e sobretudo da rapidez existente na transmissão de
informações.
Os Árabes também não escaparam à crise,
que expôs vulnerabilidades e fraquezas nas fundações institucionais das suas
economias. Seis anos de “boom” petrolífero não os salvaram, designadamente os
emiratos, da crise mundial: projetos imobiliários foram adiados, investidores e
turistas estão em retirada e prevê-se, até, agitação social porque os seus
governantes negligentemente nunca apostaram numa economia produtiva, aliás como
alguns governos europeus nossos conhecidos.
A crise estendeu-se ao Extremo Oriente,
onde a Coreia do Sul está com graves problemas e o Japão viu baixar em 30% o
valor das suas exportações. Chegou também rapidamente à Índia e à China, que até
há muito pouco tempo se sentiam livres das aflições do mundo
rico.
A Índia tem um grande potencial, é uma
democracia e está habituada às crises. A China, em 2008, já viu o PIB subir
apenas metade do que costumava subir nos anos anteriores, agravando as
perspetivas económicas. O Financial Times assegura que o governo chinês mente
sobre o estado da sua economia e que a China já entrou em recessão.
Se assim for, os americanos que se
cuidem porque a China poderá ver-se na necessidade de pôr cá fora os triliões de
dólares das suas reservas com consequências facilmente previsíveis para os
Estados Unidos.
Fizeram parte da crise global a baixa
generalizada nos valores dos títulos em Bolsa – tendo sido o sector bancário o
mais penalizado - e a quebra do consumo devido à multidão dos desempregados, às
famílias arruinadas e aos que não conseguem o crédito de que
necessitam.
Também intervieram, de forma diferente,
pouco transparente e não sabemos com que extensão, as chamadas operações
“off-shore” nos paraísos fiscais.
Não ajudou a evitar a crise o facto de
uma boa parte da população do mundo ocidental ter vivido durante anos da
especulação bolsista, que nada produz e não aplica
mão-de-obra.
No fim de 2008, veio agravar a crise o
colapso do superfundo de investimento de Bernard Madoff, a D. Branca americana
que só tinha dele estas pequenas diferenças: o volume do dinheiro movimentado, a
duração do engodo e o facto de D. Branca ter enganado ingénuos gananciosos e
Madoff ter enganado especialistas financeiros gananciosos. Admira que ninguém
tivesse estranhado que os juros fossem tão altos!
Segundo Fernando Sobral, Madoff
transpirava confiança. Ao contrário do que sucede noutros países onde se
desconfia e tem inveja de quem é ou fica rico, nos Estados Unidos os ricos são o
expoente do sonho americano. Confia-se neles. Eles são um estímulo para quem
quer ser como eles, Madoff era o expoente desse sonho. Mas o mundo onde viveu
Madoff era de ilusões baseadas na confiança. Confiança que agora
ruiu.
Sendo um dos maiores vigaristas de
todos os tempos, dava-se ao luxo de selecionar os clientes que aguardavam em
longa lista de espera a sua oportunidade. Da clientela constavam muitas
personalidades e instituições conhecidas, como o principal banco francês, metade
dos bancos espanhóis, incluindo o Santander e o seu presidente, uma mão cheia de
fundos israelitas e até bancos e fundos
portugueses.
E o que é de estranhar é que a
autoridade reguladora dos mercados financeiros norte-americanos recebia
denúncias desde 1999 e nunca atuou.
E
quais seriam então as soluções possíveis?
São muitas e variadas, e convém começar
por lembrar o que fez o governo Sueco, quando no início dos anos 90 se viu
confrontado com uma crise bancária.
Alguns analistas americanos, face à
crise que veio à superfície em Setembro, apresentaram ao Congresso, para servir
de lição para as medidas que estavam já ali a ser preparadas, um relatório sobre
a forma como a Suécia tinha evitado, de uma forma rápida e exemplar, o colapso
do sistema financeiro na Escandinávia.
O governo Sueco criou uma agência
estatal com ampla autoridade para atuar dentro dos seguintes princípios: 1) o
processo deve ser transparente; 2) a agência deve ser política e economicamente
independente; 3) deve ser mantida a disciplina do mercado; 4) deve ser elaborado
um plano para rápida injeção de fluxos de crédito no sistema financeiro.
O Financial Times vem agora dizer que a
Europa deve seguir o modelo Sueco de recuperação ou não encontrará solução fácil
para a crise.
Em
linguagem simples, uma crise económica resolve-se com injeção de dinheiro no
mercado para recuperar o investimento, aumentar o consumo e fomentar o
emprego.
No caso atual, a medida mais urgente
foi não deixar falir os bancos.
A não ser assim, perdia-se a confiança
no sistema bancário e faltaria a liquidez que permite a recuperação. O
equilíbrio do sistema bancário, e não há a este respeito outra opinião, é
indispensável às tentativas de resolução da
crise.
As medidas europeias para combater a
crise seguiram-se ao pontapé de saída dado pelo primeiro-ministro inglês, que
apresentou um esquema coerente e que viria a ser seguido pela generalidade dos
outros países.
As ajudas ao sistema bancário podem
assumir várias formas: a nacionalização usada imediatamente pelos Suecos na
crise dos anos 90, o aumento do capital dos bancos com dinheiros do Estado, os
empréstimos remunerados aos bancos e a venda de garantias para a obtenção de
crédito.
Se houver sorte e boa gestão o Estado
pode acabar por não perder ou até ganhar com estas ajudas quando a economia
voltar à normalidade.
Contrariamente às críticas ferozes e
demagógicas feitas em alguns países ao apoio dos Estados aos bancos em
dificuldades, devemos pensar que as garantias e o dinheiro mobilizados não se
destinaram a proteger os banqueiros nem os acionistas, mas a salvaguardar a
capacidade de oferecer crédito a quem ele é indispensável, a proteger as
poupanças tão estimuladas, fruto de vidas inteiras de trabalho ou únicas fontes
de sobrevivência e, sobretudo, a salvaguardar a confiança no
mercado.
Tudo levava a crer que os Estados
excluiriam da sua proteção os investimentos em fundos especulativos e
aleatórios, mas o governo inglês, com surpresa e perante a gravidade da
situação, já estabeleceu um regime para proteção dos ativos “tóxicos” dos
bancos, separando-os dos ativos bons e
colocando-os sob o controlo do Estado.
Como esta prática está a
generalizar-se, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia vão fazer
recomendações comuns a todos os Estados europeus para evitar a concorrência
desleal.
Também a administração Obama,
melhorando uma intenção da administração Bush, decidiu reunir os ativos
“tóxicos”, ainda existentes, num banco criado para o efeito pelo Departamento do
Tesouro.
Ao apoio à Banca segue-se a injeção de
dinheiro no mercado, designadamente em obras públicas e em empresas com
dificuldades.
Em determinados países, onde os grandes
investimentos têm de ser feitos, eles devem aguardar melhor oportunidade, tendo
em conta que podem comprometer a dívida externa; que são entregues normalmente a
dois ou três grandes consórcios em vez de distribuírem o trabalho pelo país; que
empregam sobretudo mão-de-obra não qualificada e que não têm resultados
imediatos na resolução da crise.
Permitam-me um pequeno parêntesis, que
nada tem a ver com a crise. Existe hoje, e é correto, a preocupação do
equilíbrio do binómio custo/benefício nos investimentos; mas ocorre-me pensar
que se nos tempos antigos houvesse esta preocupação o planeta era muito
insípido: não existiam as pirâmides do Egipto, o Taj Mahal da Índia, nem os
castelos do Loire e da Baviera, tudo hoje atrativos para o dinheiro dos turistas
de todo o mundo.
O investimento, no conceito da União
Europeia, dever ser racional.
Deve ser espalhado por todo o país, ter
realização e utilidade imediatas, privilegiando pequenas e médias empresas em
obras nos sistemas educativo, energético e
científico.
O pior, escreveu alguém, é que se fazem
planos que, no papel, gastam milhões e empregam milhares, mas respondem mal às
necessidades imediatas.
No caso Português, teria sido muito
útil aproveitar as energias keynesianas do governo para investir na recuperação
do património artístico, habitacional e arquitetónico: castelos, monumentos,
igrejas, e, como escrevia Pulido Valente, “em qualquer um dos mil prodígios
dispersos pelo interior que hoje lamentavelmente apodrecem ou caem em ruínas, no
meio de uma unânime indiferença”.
Também uma antiga ministra da cultura
manifestou a opinião de que “a crise pode constituir uma oportunidade para o
património, se não persistir a miopia política que não permite olhá-lo como
prioridade política e económica”.
O apoio às empresas varia de país para
país de acordo com as suas possibilidades e as suas características, mas não
pode ser feito ao livre arbítrio das autoridades e deve ter em atenção a
transparência e a independência política e económica das decisões e das
escolhas. É imperioso pensar que qualquer auxílio a empresas industriais – que
não consigam aumentar o capital próprio - deve acorrer a dificuldades
conjunturais e não estruturais, sob pena de se estar a gastar dinheiro para
adiar os problemas.
Ainda nos lembramos do auxílio
bem-intencionado, mas erróneo, que foi dado no século passado a empresas têxteis
do Vale do Ave, que fecharam pouco tempo depois. E foi essa dúvida que levou o
congresso americano a hesitar na ajuda à sua indústria automóvel que produz
viaturas obsoletas, por serem altamente consumidoras e altamente
poluentes.
É opinião da maioria dos economistas de
que todas as medidas devem ser provisórias, até à completa resolução da crise,
porque, como afirmou o Prémio Nobel da Economia de 2003, “a intervenção do
Governo não é útil a longo prazo”.
Outra solução credível e muito
apregoada é a redução de impostos.
Pode ser geral, abrangendo todos os
contribuintes e aumentando rapidamente o consumo, mas será considerada injusta e
dificilmente suportável no Orçamento.
Deve por isso encontrar-se soluções
seletivas, que variam de economia para economia, como, por exemplo, promover o
emprego, beneficiar empresas viáveis de interesse nacional ou alterar
favoravelmente os escalões dos impostos.
Existe a opinião de que a baixa de
impostos é a solução mais simples e reflete-se logo no consumo, mas é menos
eficaz na formação de empregos e dá menos retorno ao Estado.
Parece, além disso, que as pessoas
podem não reagir como se pretende e em época de crise e de insegurança nem
sempre utilizam a baixa de impostos para consumir ou
investir.
A redução de impostos, em vez de ser
uma solução alternativa, deve ser uma solução complementar dos investimentos
públicos.
Assim fizeram já o Reino Unido, a
França, a Alemanha e os Estados Unidos. E outros vão seguir o seu
exemplo.
Outra solução complementar destas é a
redução das taxas de juro, que é fácil e tem aplicação imediata, mas isolada não
parece mostrar-se muito eficaz.
É claro que o dinheiro barato facilita
a recuperação e o desenvolvimento, mas também dispara pela culatra incitando ao
endividamento excessivo e podendo provocar a
inflação.
No entanto todos a aplicaram. E não
deixa de ser curioso e revelador que a taxa, no Reino Unido, acabou de baixar
para 1%, o valor mais baixo dos últimos trezentos e quinze
anos!
A pior solução, até porque afinal já
mostrou não ser solução, é o recurso ao protecionismo. Os Estados, vendo a sua
economia a afundar-se, tendem a fechar as fronteiras aos mercados exteriores e a
baixar o valor da moeda para facilitar as exportações.
Com a lei Smoot-Hawley que, na crise de
1929, aumentou os direitos alfandegários a 900 produtos, o comércio
internacional baixou para menos de metade e deu lugar a uma espiral recessiva
que levou à Grande Depressão e tanto trabalho deu ao presidente
Roosevelt.
Logo que se percebeu a dimensão da
presente crise, a Comissão Europeia propôs um plano abrangente para, em
conjunto, atenuar o seu impacto no emprego, no poder de compra dos cidadãos
europeus, no provimento de recursos de capital e, em resumo, na recuperação das
economias.
Em Dezembro, os dirigentes da União
Europeia reuniram-se para apreciar estas medidas numa tentativa para encontrar
soluções coordenadas. Parece que não foi fácil o acordo, mas acabaram por fazer
quase todos, mais ou menos, o mesmo e que também é, mais ou menos, o mesmo que
vão fazer os Estados Unidos.
Temos de reconhecer que a solução de
uma crise global como a presente depende da combinação dos fatores nacionais e
internacionais existentes na altura e a sua resolução está ligada às
características e às condições financeiras de cada
Estado.
A cooperação entre todos mostra-se
indispensável à sua solução. Foi por isso que o Forum Económico Mundial, que
reuniu, no fim de Janeiro em Davos, 2500 políticos, empresários, economistas e
muitas pessoas que não têm mais que fazer, escolheu este ano para tema o debate
da crise.
E, concluíram, como eu, que os Estados Unidos são os responsáveis últimos da crise, que é preciso evitar o protecionismo e que a crise ainda não bateu no fundo.
A extrema-esquerda diz que o Fórum é
uma reunião de ricos para inventar novas maneiras de enriquecer à custa de todos
os outros.
Indicadas as causas mais prováveis e
mencionadas as soluções possíveis mais conhecidas, termino com algumas
observações, que diria avulsas, acerca do pouco que podemos dizer sobre o que
nos espera.
Mais uma vez, nas intervenções que
faço, afirmo que não vou dizer o que quero ou não quero que aconteça, mas sim o
que aconteceu e o que penso que vai acontecer.
Vão melhorar sem dúvida a regulação e a
supervisão da atividade bancária, os bancos atuarão de forma diferente, e vamos
ter, finalmente, a penalização das atividades ou operações ilegais ou perigosas.
Alguém escreveu, com graça, que os
bancos viveram despreocupados estes últimos anos, investindo em aplicações cuja
origem, composição e valor desconheciam.
Aperceberam-se agora envergonhados da
sua ingenuidade e do seu afastamento de tradições respeitáveis, e hoje só
emprestam, sem margem para dúvida, a quem não precisa.
(fim de
citação)
O sociólogo António Barreto comentava
recentemente o disparate e a precipitação das seguintes frases que foram ditas
no início da crise: “É o regresso a Marx”; “É o fim do capitalismo”; “Acabou a
hegemonia americana”; “O Estado tem de tomar conta da
economia”.
A leitura destas frases fez-me lembrar
o célebre economista russo Nikolai Kondratiev que, estudioso das longas crises
económicas, descobriu que o capitalismo surge revigorado depois delas.
Desafortunadamente para ele, que já
tinha impressionado Lenine com o seu talento, publicou um livro, que chegou a
ser editado na Alemanha, em que mostrava que o capitalismo, sujeito a periódicos
embaraços, nunca se destrói por si mesmo.
Com tanta clarividência e tanta
coragem, Estaline mandou-o refletir para um “gulag” na Sibéria e, como ele não
tinha emenda e continuava a pensar, deu ordem a Molotov para o mandar executar,
tendo sido fuzilado com 45 anos de idade.
Concordando com Kondratiev, eu diria
que vamos continuar a ter um mundo globalizado e estruturado segundo os
princípios da economia social do mercado, orgulho da civilização europeia
ocidental.
Foi esta ideologia que assegurou o
progresso e a liberdade no mundo ocidental e que, adaptada à China e à Índia, já
tirou da pobreza centenas de milhões de seres
humanos.
O presidente Obama considera a crise
americana devastadora e diz que é importante regular os mercados, mas que eles
continuam a ser uma força determinante para expandir a liberdade e o bem-estar.
Não difere muito de Pinto Leite quando
este escreveu que “a resposta à crise, seja qual vier a ser a sua dimensão, não
é menos capitalismo, mas melhor capitalismo, não é mais Estado, mas melhor
Estado”.
..."
....................
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